ARTIGOS

TERRA AOS ÍNDIOS

Sempre que se estabelece uma nova polêmica sobre Reservas Ambientais ou Indígenas ouço da parte de muitos a seguinte e emblemática frase: “é muita terra para pouco índio”.  Pois bem, pretendo aprofundar esse tema de forma não impregnada de ideologia ou interesse econômico. Esses dois fatores, quando presentes, distorcem fatos e mutilam verdades, induzindo a prevalência não só do falso e do tendencioso, mas, principalmente, do injusto e preconceituoso. O maior paradigma falso a ser quebrado na mente de muitos é o de que as Reservas Ambientais sejam exclusivamente para usufruto dos Índios. Não são. Somos todos por elas beneficiados com seus efeitos ecológicos. Quando nelas houver nativos, e só nesses casos, pode-se admitir que ali permaneçam os Índios. Seu tamanho é definido sob critérios ecológicos, geológicos, geográficos e políticos. São maiores ou menores independentemente de quantos índios haja sobre elas, ou mesmo se nenhum houver. Quando Cabral aqui aportou com suas caravelas em 1500, pela primeira vez pisaram este solo uns poucos brancos europeus portugueses, antecedendo a colonização que se seguiria décadas e séculos mais tarde. Não havia censo nem IBGE. Estudos antropológicos críveis permitem estimar que aqui habitavam, na mesma época, cerca de 5 milhões de Índios. Houvessem as naus portuguesas retornado à Lisboa e nunca mais voltado, após 512 anos seriam hoje muitos milhões de Índios no Brasil. Quantos em realidade são? Muito menos do que na época de Cabral, ou seja, segundo o Censo IBGE-2010 são apenas 896.917 pessoas. Não há como negar o massacre, seja o físico pelo genocídio ou o cultural pela injusta e devastadora “integração”. Deu-se isso ao longo dos séculos sob as mais diversas formas. Os europeus que aqui vieram sempre foram movidos pelo espírito da conquista, do enriquecimento e da exploração. Ou, teriam sido os portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses e outros aventureiros, todos eles colonizadores pacíficos e cordiais? Teriam compartilhado o conhecimento e difundido sua cultura entre os indígenas para torná-los iguais? Teriam promovido o “resgate” dos Índios pela via da escola ou pela catequese, pela fé e a prática cristã da caridade? Obviamente não. Muito pelo contrário. Os Índios foram sistematicamente escravizados para exploração da floresta, a prática da agricultura primitiva e a mineração braçal do ouro e prata. A conquista do território brasileiro se deu, pois, pela chibata, pela espada, pelo mosquete e o canhão, como o foi também em toda a América, do Alaska até a Patagônia. Os espanhóis, sob reinado da dinastia de Aragão e Castella e seus asseclas exploradores e genocidas como Hernán Cortéz e Francisco Pizzarro, foram particularmente eficientes nisso. Não bastava afugentar ou escravizar, era preciso extinguir, como de fato se extinguiu as civilizações dos impérios Maia, Inca, Asteca e tantas outras, transpassando pela bala e espada as mulheres, as crianças e os homens resistentes à escravidão e espoliação. Assim evidencia a história, que se frise, não foi escrita pelos Índios. Não foi muito diferente mais ao Norte, onde segundo o general Custer “o índio bom é índio morto”. Também não foi diferente por aqui com os Bandeirantes brasileiros.  Dessa forma deu-se a colonização e ocupação das terras no sentido do litoral ao interior. Resta hoje preservada apenas cerca de 5% da Mata Atlântica brasileira, o habitat original de muitas tribos já extintas ou em vias disso. A presença indígena remanescente nesse bioma é o horror que conhecemos bem, pois se dá sob nossos olhos, isto é, quando os queremos enxergar, nas esquinas da mendicância. Moralmente a terra não é de quem a “comprou”, sabe-se lá de quem e com que titulação ou esbulho cartorial. Nem mesmo de quem no passado mais remoto a recebeu de coroas européias ou mais recentemente de um Estado de governos sabidamente pródigos com poucos próximos dos seus governantes, em regra perdulários e corruptos. A terra é, antes de tudo, de quem nela nasceu e habitava primariamente sem titulação legal alguma, tendo sido dela escorraçado por “colonizadores”, que me lembro bem, na minha colônia, apelidavam os indígenas de bugres e não os distinguiam dos animais. Hitler, no século XX, não inventou o holocausto que impôs a morte e a expropriação de terras e posses contra nações e minorias que julgava inferiores. O regime nazista tão somente copiou os velhos conceitos de colonização dos antepassados europeus já praticados contra nativos da América, séculos antes. Obviamente, o nazismo aumentou a escala e a velocidade dos massacres com armas modernas do século XX. Aperfeiçoou os métodos medievais com campos de extermínio, gazes e fornalhas. De tudo isso há lições a tirar. A continuidade do holocausto aos nativos que restaram por aqui não é mais aceitável no século XXI. Não sei se com este escrito contribuo para a mudança da realidade dos Indígenas, nem mesmo dos Guarani-Kaiowás que se encontram novamente ameaçados. Mas, estou certo de mitigar o escamoteado preconceito que se revela na hipócrita idéia de que agora seriam poucos os Índios para o quinhão de terra que moralmente lhes devemos destinar.

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AMBIENTALISMO E FÉ


Enquanto ambientalista e pessoa de fé cristã, tenho frequentemente refletido acerca da responsabilidade das Igrejas com relação à ecologia e preservação ambiental. A crença cristã nos faz convictos de que a palavra de Deus contida nas Sagradas Escrituras, mesmo quando lida e interpretada por leigos, é a fonte da verdade determinada pela nossa fé. Ao abrir a Bíblia Sagrada, já em seu primeiro livro, o do Gênesis, nos é descrito o milagre da criação do mundo e de tudo o que temos sobre a Terra. É-me claro ser o Gênesis um texto cheio de simbologias que permitem a interpretação de cada leitor e crente. No capítulo 1, versículo 3, está escrito: “Então disse Deus: que haja luz. E a luz começou a existir”. Não faz o texto qualquer alusão à criação do sol e dos astros. Muito menos aos movimentos do nosso planeta que dão origem ao dia de luz e à noite de trevas. Portanto, crer é simplesmente aceitar que tudo é obra do Criador e que ele é o nosso único Deus. Deus deu ao ser humano o domínio sobre tudo que criou. Portanto, é óbvio interpretar que quando a ação humana acontece no sentido destrutivo, o que no mundo moderno ocorre sob as formas de desperdício, poluição de terra, água e ar, desmatamento, depredação, mau trato à fauna, etc., estamos agredindo a natureza e destruindo a obra Criadora. Servir-se dela para mantimento não pode implicar em destruir. Destrói-se a natureza da qual nós humanos somos ao mesmo tempo parte e dominadores por dádiva divina. Agir contra a natureza por ação ou omissão, em benefício individual ou de poucos,  em prejuízo do mantimento de todos, no presente e no futuro, é atentar contra a vontade e a ordem do Senhor. Os atos de agressão ao meio ambiente são atentados à obra divina e, consequentemente, contra toda humanidade. Ressalvada mais uma vez minha condição de não teólogo, parece-me óbvio interpretar as escrituras e afirmar que o dano ambiental é um pecado dos mais pérfidos e abomináveis. Conclui-se que a ecologia e a fé são duas coisas inseparáveis. Em pleno século XXI e diante do dramático quadro de degradação ambiental a nível local e planetário, todas as religiões, a meu ver, deveriam incorporar a responsabilidade ambiental como um componente de doutrina e fé e as respectivas ações de proteção da natureza como missão. Estaríamos assim mais próximos da salvação do planeta e de muito mais almas.

Rubens Hering – é membro da  Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, em Curitiba. Concorreu ao Senado em 2010 ao lado de Marina Silva candidata à Presidência.


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O BRASIL FORA DOS TRILHOS

Minhas lides com o Seguro de Transportes e o contato com o setor, me tem feito questionar um dos paradigmas nacionais: se temos matérias-primas abundantes, os menores salários mundiais, energia mais barata, o que falta então para sermos mais competitivos?

Estamos perdendo a competitividade adquirida no chão das fábricas ou fazendas a partir dos seus portões de saída. O Brasil errou historicamente ao adotar um modelo de transporte predominantemente rodoviário. Um país com dimensões continentais e características climáticas como o nosso não poderia jamais ter optado pela preponderância das rodovias para distribuir suas riquezas e circularem as pessoas. Os governantes da época, por total falta de visão, lesaram a pátria criando um dos maiores agravantes do chamado custo Brasil.

Nos países desenvolvidos o transporte coletivo e de cargas prioriza os modais ferroviário e hidroviário. No Brasil este cenário está invertido. O transporte fluvial é precário e concentrado na Bacia Amazônica. A cabotagem é incipiente nos milhares de quilômetros do litoral. O transporte ferroviário é muito ruim e a malha ferroviária permanece sucateada, não obstante as privatizações. Os modais de transporte, ao invés de se integrarem concorrem predatoriamente entre si. É preciso resgatar a racionalidade do sistema pela integração e ocupação de cada um dos modais, do espaço que lhe é pertinente no contexto de uma economia que pretende competir mundialmente.

Ora, somos um país de recursos privilegiados e, portanto, rico potencialmente. Porém, esta riqueza quando transportada incorretamente faz com que boa parte dela se perca ou então encareça, contribuindo para o desperdício. Nas rodovias do primeiro mundo predominam veículos leves. No Brasil, pelo contrário, o tráfego de veículos pesados é desproporcional, contribuindo para a carnificina do nosso Afeganistão rodoviário.

Por que razão o frete rodoviário custa mais caro? Porque o modelo é mais oneroso e irracional! Por ferrovia ou hidrovia se transporta muito mais em menor tempo, a menores custos e com maior segurança. É inadmissível que, por exemplo, entre Porto Alegre e Belém as cargas viajem de caminhão.

O Brasil é um país de clima quente. O amolecimento pelo calor e os altos índices de chuvas, próprios de países tropicais, comprometem rapidamente a durabilidade da pista asfáltica. Esse fator, associado ao excesso de carga por eixo impunemente utilizado, destrói em prazo comparativamente muito menor as rodovias brasileiras e caímos num círculo vicioso de recapagens e tapaburacos pagos pela sociedade na forma de mais impostos e taxas. Estradas em mau estado resultam em mais quebras e acidentes graves, ou seja, alto custo de manutenção de frotas. Roubar caminhão é mais fácil que vagão de trem. Trombam muito mais caminhões do que vagões de trem. Assim, os seguros têm de encarecer onerando os fretes e preços dos produtos.

Uma composição ferroviária de locomotiva diesel para 20 vagões custa US$ 3 milhões, estimativamente, tendo uma capacidade de carga de 1.000 toneladas e uma vida útil de 30 anos. Uma frota de 20 caminhões, modelo Jamanta, custa os mesmos US$ 3 milhões, tendo porem uma capacidade de carga de apenas 540 toneladas e menos da metade da vida útil. A frota de caminhões consumirá para a mesma carga, cinco vezes mais óleo diesel. Ainda sem entrar no mérito da possível e ainda mais vantajosa eletrificação. Não é preciso calcular. Basta comparar esses dados elementares para constatar que o trem é a melhor opção de transporte e de investimento para o país.

Merece apoio incondicional o esforço de melhoria da produtividade nas empresas e no campo. Porém, se o ganho de produtividade na fonte produtora é compensado pela irracionalidade do sistema de transportes, nossa competitividade internacional continuará irremediavelmente comprometida.

A malha rodoviária asfáltica brasileira é estimada em mais de 150.000 quilômetros. Em contrapartida, a malha ferroviária o é em torno de apenas 30.000 quilômetros e todos os dias são desativados mais ramais. O pouco que resta é mal mantido e mal operado, devendo em breve ser devolvido pelos operadores privados ao Estado mais sucateada do que a receberam.

Os efeitos disso tudo acabam refletidos no valor da etiqueta do supermercado ou na guia de exportação. O Brasil está na contramão do mundo quando procura a competitividade e corre o risco de não achá-la jamais, se não se recolocar nos trilhos imediatamente.

A solução é muito simples. Basta mudar a política de transportes para mais trilhos e hidrovias. O que nos entristece é que não há sinal de mudanças nos discursos de governantes, não obstante a época eleitoral.

A falta de visão da maioria dos políticos é tanta, que nem sequer no devaneio das promessa eleitorais a prioridade ferroviária ou hidroviária é mencionada. Resta a esperança de que nossos governantes, juntamente com a ala inteligente e idealista do empresariado, vislumbrem este cenário e se transportem para a história como verdadeiros estadistas e patriotas, fazendo via transportes algo mais significativo do que simples operações tapa-buraco.

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ENTENDENDO OS "VERDES"

Na década de 70 nascia na Tasmânia - Austrália, o primeiro Partido Verde do planeta. Algo longínquo na distância e no tempo. Embrionário, não tinha ainda a visão de salvar o planeta, mas, tão somente, a de um rio local ameaçado pela poluição. Décadas se passaram e hoje aquela primeira célula transformou-se num movimento mundial. O Global Greens Network é presente em mais de 70 países, unindo todos os Partidos Verdes sob um lema central: salvar o planeta.

Nesses tempos, os “Verdes”, mundo afora, têm vivido dilemas ideológicos. Seria uma corrente política de esquerda aparentada do marxismo? A pergunta é pertinente porque tradicionalmente, quando compondo frentes partidárias, os vemos mais próximos desses Partidos. Ou, seriam os “Verdes” uma corrente política independente, e assim uma alternativa de contraponto a velha dicotomia de esquerda e direita?

O Muro de Berlim foi construído em 1955 por ordem de Stálin, sob a égide da foice e do martelo para proteger o socialismo contra a sanha capitalista e seus malefícios. Em 1991, foi derrubado, não pelas armas do capitalismo neoliberal que pretendia conter, mas pelas mãos de trabalhadores empunhando os mesmos martelos e foices, só que, agora, não mais como símbolos de uma ideologia, mas transformados em meras ferramentas de derrubada do entulho. Assim, acabou melancolicamente o muro da vergonha e tudo que representava. Alguém poderia afirmar que o capitalismo neoliberal, venceu. Não creio, nem o vejo assim. O marxismo não foi derrotado ou explodido na guerra fria pelas potências capitalistas. Ele implodiu. Autodestruiu-se. Sucumbiu ante suas próprias incoerências e vícios, cuja maior vítima foi a classe trabalhadora, justamente em nome de quem tudo fora feito. As suas maiores mazelas foram a ineficácia e a corrupção do gigantismo estatal centralizado.

Incrível, mas muito disso permanece vivo no capitalismo atual, inclusive o brasileiro. Não se pode afirmar que um sistema é bom e o outro ruim. Enquanto ideologias, diria até que ambas são muito boas nas páginas dos livros de seus ideólogos. O que as torna igualmente péssimas são os maus políticos que em nome delas se abonam do poder.

As ideologias políticas no século XXI não mais serão dicotomizadas pela discussão de direita versus a esquerda, como se fossem caminhos únicos da limitada questão social e econômica. No novo milênio o fator ambiental passa a integrar a equação política como a sua variável preponderante. Não mais haverá fator social ou econômico de interesse restrito que justifique a degradação do meio ambiente que é de todos. O debate da política moderna será entre: o bem e o mal, o certo e o errado, o preservar e o destruir, a probidade e a corrupção, o justo e a injustiça, etc.

Ou vamos pelos caminhos da sustentabilidade ou daremos todos literalmente com burros na água poluída e escasseada por essa globalização devastadora. Fracassaram as velhas ideologias de esquerda e direita. Só produziram miséria, injustiças e degradação. Assim, finalmente se reúnem os antagônicos Karl Marx a Adam Smith, num mesmo lugar: o ostracismo da história. O Capital e A Riqueza das Nações deixaram a estante e foram para o porão junto aos livros obsoletos ou ruins. Bem vindos, todos, à era do Desenvolvimento Sustentável pela vida, o que conduzirá ao fim das velhas ideologias. Quem viver, verá.

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CONSIGNAÇÕES

Na iniciativa privada ou no serviço público, a relação entre empregador e empregado deveria ser de foro reservado a ambos e ao fisco. Diria que a folha de pagamentos e o contracheque são sagrados. O sigilo e a intocabilidade do salário são valores éticos a serem preservados no contexto de uma sociedade decente. Os descontos em folha jamais deveriam adentrar ao crédito e ao consumo, pois estes não fazem parte da relação trabalhista.

Verifica-se hoje em dia, que as Instituições Financeiras assediam acintosamente o assalariado e o aposentado para induzi-lo à tomada de mais e mais empréstimos. Não obstante, é um mal necessário, pois sem isso estaria o trabalhador ou aposentado à mercê da agiotagem informal, não combatida e impune. É oferecido o crédito fácil e imediato, para fazer o que bem se queira, geralmente a juro alto que o tomador sequer sabe qual é, pois só enxerga a parcela que o empregador privado ou estatal é obrigado a lhe descontar.

A lei instituidora é, portanto perversa, que foi provavelmente gestada e parida a fórceps pelos conhecidos métodos dos “lobbies” brasilienses. É a indução ao consumo exacerbado e ao endividamento crônico, do qual a maioria dos trabalhadores não mais consegue sair. A saída oferecida é a do refinanciamento, perpetualizando a dívida e a dependência financeira escravizante. Tarifas de todo o lado, seja para contrair ou até para liquidar o empréstimo.

Já o empregador pode imaginar que esteja colaborando com seus empregados para acesso ao crédito mais barato. Ledo engano. O crédito consignado como está no Brasil é de uma irresponsabilidade social dramática na qual se rasgam postulados mínimos de bom senso e ética. Desconta-se em folha o produto de convênios de empréstimos, supermercado, aluguel, escola, farmácia, etc. Convênios, mais que pseudo-descontos, costumam criar clientes cativos atentando contra as regras da livre concorrência. Isso virou uma grande farra, cuja conta é paga pelos assalariados mais pobres seduzidos pelo crédito fácil e desvairados pela adesão ao consumismo. É uma bomba relógio que cedo ou tarde irá explodir no colo de toda sociedade.

O recente exemplo que vem dos Estados Unidos não deixa dúvidas de para onde o crédito fácil conduz as pessoas, as instituições e todo o sistema. A bolha imobiliária que lá estourou é conseqüência do crédito irresponsável concedido às pessoas sem capacidade de pagamento. Por aqui, não fosse o desconto na fonte, a maioria dos consignados também não passaria pela análise de crédito ou estaria inadimplente.

Diria alguém, que não há inadimplência quando o desconto é em folha como no caso brasileiro. Mais um engano. Pode não haver inadimplência naquele contrato privilegiado, mas o mesmo devedor, com salário residual ínfimo, irá inadimplir com o outro Banco, a padaria, a luz, a escola, etc., induzindo-se o efeito dominó e a inadimplência sistêmica.

Os créditos consignados tomam dimensão de dezenas de bilhões e um rumo perigoso na economia brasileira. É a bolha tupiniquim. Até o dia em que estourar, e os descontos em folha tiverem de ser cancelados por força de ações populares ou coisa que o valha. Daí teremos uma “tsunami” financeira para o que deveriam ficar atentos os banqueiros menos avisados.

Mas, o mal necessário tem remédio e chama-se: monitoramento do empregador. O governo do Estado do Paraná, por recentes decretos e resoluções, iniciou um processo de moralização do sistema buscando resgatar o imprescindível cunho social desses créditos, no âmbito do funcionalismo público estadual. Reduziu drasticamente os juros máximos. Proibiu a tarifa de aprovação (TAC) e de liquidação antecipada (TLA). Reduziu a margem consignável dos salários, diminuindo o grau de endividamento das pessoas, introduziu sistema informatizado de gestão e controle, auditoria de contratos, etc.

Os sites do governo disponibilizam informações de melhores taxas e simulações de liquidações corretas. É um começo ousado e mais virá. Temos esperança de ver algo semelhante ocorrendo ao nível da União, dos demais Estados, dos Municípios e até na iniciativa privada, a bem do assalariado.

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O QUE NINGUÉM FALOU AINDA

Vamos tentar ir ao cerne do aquecimento global. Os gases causadores do efeito estufa se acumulam na atmosfera por vários anos. Seus níveis variaram ao longo da existência planetária. O mar subiu e desceu várias vezes. As geleiras se formaram, derreteram e tornaram a congelar. Espécies surgiram e se extinguiram. Mera evolução natural ou a mão de Deus, como se queira.

Desta feita, no século XXI, a comunidade científica conclui que o aquecimento acelerado do planeta se dá como conseqüência da irresponsável ação humana. Aliás, a natureza não reage de imediato contra as agressões que sofre. A árvore tomba. O rio aceita a poluição. A atmosfera recebe e acumula CO². Tudo passivamente, até que um dia, “ela se vinga”. Pois esse dia chegou. Nós e as gerações imediatas é que iremos vivenciar essa amarga experiência.

O que é incrível é que tudo foi causado num piscar de olhos em tempo geológico. A Revolução industrial data do século XVIII. A quase totalidade do excesso de emissão dos gases causadores do aquecimento por atividade humana se dá a partir da segunda metade do século XX. A comunidade ambientalista já prognosticava isso há muito tempo. Sem base científica, mas por ousadia, idealismo e amor à vida, características do ambientalista autêntico. Triste é constatar que de nada ou pouco valeu, pois não foram ouvidos. O que poderia ter sido evitado não o foi. Pelo contrário, sempre taxados de “ecochatos” ou desdenhados de serem radicais e empecilho para o progresso. Bom seria se o mundo pudesse voltar no tempo e corrigir tamanho erro e injustiça.

Os relatórios científicos, inclusive da ONU, apontam causas e problemas. Esperamos que em breve apontem também as soluções. Dentre o conjunto de medidas capazes de minimizar os efeitos da hecatombe, espero que não esqueçam do principal, ou seja, estimar qual é a população humana máxima ou ideal da “nave” Terra para que sua tripulação de todas as espécies possa ter vida abundante em alimento, com água limpa e ar puro. Isso só será possível a partir da contenção do crescimento da população humana, pré-requisito para todos os demais passos a serem dados. Ou se contém o crescimento populacional ou tudo mais será utopia e romance. Com 6,5 bilhões de humanos chegamos ao caos econômico, a miséria social e ao desastre ambiental. Com mais de 9 bilhões de habitantes projetados para 2050, a expansão das fronteiras agropecuárias derrubará a última árvore. Para o Brasil projeta-se 250 milhões de habitantes. Pergunta-se: Se hoje com 180 milhões temos todas as nossas conhecidas mazelas, estaremos então caminhando para um país melhor?

É evidente que a tendência é de sermos uma sociedade insustentável, econômica, social, e ambientalmente, e como tal muito pior. É no quantitativo da população humana, ao mesmo tempo causadora e vítima dessa tragédia, que mais precisamos começar a falar. Fazê-lo sem preconceitos e falsas moralidades. Debater de forma aberta sobre os meios éticos de planejamento familiar da natalidade a serem implementados em escala global, enfatizando o acesso dos povos mais pobres à contracepção. Caso contrário, só nos restará em breve sentir o golpe irremediável da espada do anjo do Apocalipse.

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POR QUE A COP 15 DE COPENHAGEN FRACASSOU?

Ao final do evento que reuniu mais de uma centena de Chefes de Estado e seus Ministros, produziu-se nada mais que algumas melancólicas linhas de um texto vazio que pouco ou nada significam. O acordo de Kyoto finda em 2012 e em Copenhagen nada se produziu para prolongá-lo ou o substituir por algo mais avançado. O caos, a poluição e a devastação ambiental avançam e as ações saneadoras retrocedem pela contramão, agravando-se o problema mundial.

No final de 2010 o México deverá sediar nova conferência do clima. Merkel, a primeira ministra alemã, talvez a potência ocidental mais verde, pressionada por uma cidadania mais ecológica, já chamou uma conferência preparatória para a cidade de Bonn, em meados de 2010. Se o fracasso de Copenhagen não for remediado a curtíssimo prazo, o nosso planeta febril e gravemente doente enfrentará o seu mal, exatamente como um paciente em UTI, quando os médicos lhe dizem: nada mais nos é dado a fazer. Foi isso que lá vimos. Não podemos permitir que o planeta saia da UTI para o necrotério, por incompetência desses curandeiros políticos que lá fracassaram. É preciso salvar a Mãe Terra.

Copenhagen não foi uma conferência de clima, mas de negócios. Países ricos tentando pagar a conta que devem do passado poluidor comprando o direito de mais poluir no futuro e pagando o mínimo possível com uma moeda podre que apelidam de Crédito de Carbono. É o grande capital comprando o direito de poluir sem a responsabilidade de diminuir a poluição. De outro lado, os países pobres de chapéu na mão para captar esmolas em troca da preservação. Os emergentes querendo assegurar o direito de, em breve, serem iguais aos ricos. O que lá se tentou fazer foi puro “business”.

Há décadas sou ecologista e me preocupo com essa questão. No âmbito da vida privada procuro manter padrões ecológicos de comportamento. Como empresário ou executivo sempre me empenhei para que a responsabilidade social de minha instituição estivesse focada também na questão ambiental. Procuro fazer minha parte. Aliás, como todos deveriam fazer. Mas, só isso não basta mais. Separar lixo é importante, mas, não salvará o mundo. A nível planetário o equilíbrio já foi rompido. O Planeta não suportará 10 bilhões de pessoas, e da questão demográfica nem sequer se falou em Copenhagen. Embora a solução ainda passe por comportamentos individuais e ações locais, temos de reconhecer que o receituário da Agenda 21 da conferência Rio/92 está defasado, exatamente por que foi pouco ou nada seguido no Brasil e mundo afora.

Ainda podemos ter esperanças? É a pergunta que todos fazemos. Sim, respondo com minha mais firme convicção. Há esperanças e o mundo não vai acabar amanhã. Mas, pode melhorar ou piorar muito na exata proporção do que for feito agora pela humanidade.

Qual é o caminho então? Quem decidirá essas questões sempre serão políticos com mandato eletivo. As pessoas certas estavam lá. Mas, eles jamais farão o que lhes recomendar a comunidade científica internacional ou os ecologistas de plantão. Sempre farão o que lhes for eleitoralmente mais proveitoso no âmbito interno de seus países. Portanto, só há um caminho. É transformar a questão ambiental, definitivamente, na agenda eleitoral prioritária, ao lado da educação e no mesmo patamar desta. Há décadas os verdes dizem isso e não lhes são dados ouvidos, obtendo resultados eleitorais que vão do pífio ao modesto. É tempo de mudar isso.

As bancadas nos parlamentos, não importando se de países, Estados ou cidades, têm de ser mais verdes e comprometidas com a agenda sócio-ambiental do autêntico Desenvolvimento Sustentável. Quem tem de determinar isso é a sociedade e os eleitores. Quando isso começar a acontecer a partir do voto popular, no Brasil e mundo afora, aí sim teremos conferências de clima a favor da vida e não mais de negócios. “Nada é mais forte do que uma idéia cujo tempo chegou – Victor Hugo”. É chegado o tempo de sermos menos materialistas e mais humanistas verdes. Este ano teremos eleições...

Um comentário:

  1. Contando que o Senhor manterá uma postura laica diante do Povo e do Senado escolhi lhe dar um de meus votos.

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