quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

PRIORIDADE

Se perguntarmos a qualquer brasileiro qual é o nosso pior problema econômico ou mazela social, a resposta não fugirá muito do óbvio que todos sabem: educação precária, corrupção, falta de infra-estrutura, inflação, desemprego, etc. Mas, qual seria dentre elas a prioridade a atacar para melhorarmos o Brasil? A educação, todos responderão em consenso nacional de 200 milhões. Eu não divirjo. Mas, tem outra prioridade, não mencionada, que antecede às demais, inclusive a da educação. Todos se tornam problemas secundários diante da nossa maior mazela macro-econômica. Refiro-me às estratosféricas taxas de juros da desastrada política monetária, que desde sempre nos enfiam de goela abaixo como um remédio amargo a ser tomado na marra. Isso está mais para coisa de curandeiro do que de economista. Economistas em geral e as autoridades de plantão usam argumentar que as altas taxas são necessárias para combater e conter a inflação. Balela. Juros são custos das empresas e projetos financiados, que são sistematicamente repassados para os preços. Portanto, o juro alto repassado é inflacionário. Outros dizem que juros altos deprimem o consumo e assim combatem à inflação de demanda. Outra balela teórica, que não funciona no Brasil. Qual é o conhecimento financeiro da nossa população consumidora para se adequar a isso, parando de comprar porque subiu o juro? Nenhum. Na Suíça quem sabe funcione. Mas, não por aqui no país do crediário a perder de vista e do juro embutido no à vista. O consumidor, quando muito, calcula se a parcela mensal cabe no seu orçamento familiar. Juros, via de regra, ele nem sabe o que são, quanto são e a que servem. Somos o país do em 10 vezes “sem juros”, e se acredita nisso. Aumentam-se as taxas de juros e simultaneamente os prazos e parcelas. Consequentemente a inflação de demanda não é combatida. Muito pelo contrário, é inflada, pois se estimula o consumo via crédito fácil, neutralizando o juro alto. O comércio em geral prefere vender a prazo e não à vista. Só no Brasil isso acontece. Temos assim, uma grande injustiça social. O rico que poupa se beneficia do juro alto. Ele compra a sua TV à vista, mediante desconto. Ganha nas duas pontas, na da aplicação prévia do dinheiro poupado e na do desconto na compra. Já o pobre paga o dobro pelo mesmo produto via crediário de juro alto. Outros, dizem que é para atrair capital estrangeiro. Mais uma balela. Por que alguém precisa de uma SELIC de 13,75% ao ano? No Japão a correspondente é negativa. A “Prime Rate” é a taxa mais alta que os Bancos americanos oferecem aos seus grandes investidores preferenciais, que é de 3,50% ao ano. A inflação lá é de 2% ao ano. Falamos assim de juro real de 1,5% ao ano. Ouve-se dizer que o Brasil é país de alto risco, portanto temos de pagar taxas mais altas para captar recursos de fora. Concordo na teoria, mas divirjo na prática. Precisa essa taxa de risco ser de 300% acima da “Prime Rate”? Isso é mera especulação de “Wall Street”. Não pode e não se justifica nesse nível para um país que tem mais de 300 bilhões de dólares em reservas internacionais, mantendo-se superiores à dívida externa. O juro alto é recessivo, pois, desestimula o investimento. O Brasil é o único país que conheço, o qual mesmo estando em recessão, onde o remédio seria baixar juros, os eleva na contramão de todas as teorias econômicas clássicas. A taxa de juro real deveria ser negativa nas aplicações, pois quando o capital não perde com a inflação, os capitalistas não a combatem. Ao contrário, estimulam. O juro da dívida pública, hoje, consome 46% do orçamento da União. Provoca-se uma estúpida concentração de renda para os rentistas ricos, em detrimento dos contribuintes mais pobres, que carecem da assistência estatal. Igualmente anula-se a capacidade de investimentos da União, cuja dívida já é superior a 70% do PIB. De um lado infla-se o lucro dos Bancos e do outro se definha o das empresas em geral. Quando saímos do campo do investimento para o do crédito, as taxas adentram ao nível da agiotagem institucionalizada. Outro dia simulei uma situação de uma família que teria encerrado um inventário litigioso de 14 anos, ou 168 meses. O falecido teria deixado um saldo devedor de R$ 10.000,00, em crédito rotativo de Cartão de Crédito não saldado. A taxa média desse tipo de crédito foi de 13,54% ao mês, no período e a juros compostos. Se mantido o contrato desse Cartão sem interrupção, a dívida desse espólio familiar seria ao final de 14 anos, de mais de R$ 18 trilhões. Ou seja, é maior do que três vezes o PIB brasileiro. Quem duvidar desse cálculo pode acessar à Calculadora do Cidadão do Banco Central e confirmar o valor. Quem entender que os juros dos Cartões estão adequados, poderia tentar me explicar por que a mesma bandeira no Brasil cobra juros reais de 350% e nos EUA de 10% ao ano. Desafio economistas e autoridades da área, defensores do juro alto como política monetária, a justificarem esse disparate infame, ou desmentir. Justifiquem que a política monetária sempre esteve correta, está correta e que nada tem de mudar. Estamos sim, em meio a um Deus nos acuda e salve-se quem puder, à mercê dos agiotas institucionais. Ou o Brasil baixa os juros, ou os juros altos acabam com o Brasil. E tem de ser já. Primeiro temos de sobreviver eliminando a nossa “causa mortis”. Depois, vem o resto...

Rubens A. Hering - Economista