quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Copa do Desenvolvimento

Morei na Europa em 1981, há 33 anos, portanto. Mais precisamente na cidade de Colônia (Köln), na Alemanha. Ela foi 96% destruída na 2ª Guerra Mundial. É uma cidade ressurgida dos escombros como tantas outras de lá, devastadas moralmente pelo nazismo e materialmente pelas bombas. Tem a maior e mais maravilhosa catedral gótica do planeta, a “Kölner Dom”, templo este, milagrosa e minimamente afetado pelos bombardeios aliados. Tudo isso não a impediu de ser hoje uma cidade bela, próspera e agradável à beira do lindo e romântico rio Reno. Voltei lá em 1998, dezoito anos mais tarde. A cidade estava arquitetônica e urbanisticamente igual.  Os mesmos monumentos. As mesmas avenidas e ruas. As mesmas estações de bondes e metrô. Nenhum edifício de grande porte a mais. O prédio em que morei, nem repintado havia sido. As casas em geral sem muros e sempre com seus belos jardins. Os mesmo parques enormes e maravilhosas áreas verdes. Os barcos no Reno e os trens, que agora são em boa parte “trens-bala” a 300 km horários nos trilhos do que é o maior entroncamento ferroviário da Europa, o “Kölner Hauptbahnhof”.  As pessoas bem vestidas e ordeiras em todos os lugares. Um comércio de altíssima qualidade onde bugigangas chinesas de 1,99 não são vistas. Mendigos na rua nem pensar. Mas, nem tudo é perfeito, bêbados que entornam barricas diárias da cerveja local, o “Kölch”, são muitos... Navegando pelo Site da cidade vejo que até hoje aparentemente pouco ou nada mudou por lá. Enfim, a cidade é a mesma e sua população não aumentou nesse tempo. Não fossem os migrantes estrangeiros, com ênfase para os turcos, ela teria diminuído ainda mais desde o pós-guerra. E assim é a Alemanha inteira.
Já quando comparo o Brasil de 1981 com o de hoje, a população dobrou. Já somos 200 milhões e só se vê desgraça aumentando por aqui. Em Curitiba quadruplicou-se os curitibanos. A paisagem urbana das cidades brasileiras degradou-se enormemente. A favelização cresceu em proporções trágicas. Casas e prédios atrás de muros e cercas elétricas. No mais, é poluição de toda ordem, esgotos a céu aberto, criminalidade e violência crescentes, mendicância, cracolândias, trânsito caótico, pichações nas cidades inteiras, falta de tudo que é básico em escolas, na saúde, etc. Enfim, é o retrocesso e a involução qualitativa que todos nós brasileiros bem conhecemos. Culpa do Lula e da Dilma? Sim, pelos últimos 11 anos de desgoverno em que pouco se fez quase nada mudaram. Mas, isso vem de mais longe. É igual ou pior a culpa dos governos de Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco, Fernando Collor de Melo, José Sarney e dos militares que tudo plantaram em 21 anos de ditadura e com seus 90 milhões em ação, salve a seleção... Se bem que, a seleção foi salva e já está novamente aí.
Cabe aqui fazer a reflexão central do tema e dessa flagrante dicotomia entre nós e o primeiro mundo. Por que os rumos das coisas lá e cá são tão diferentes? Por que eles lá conseguem resultados tão melhores? Seríamos nós aqui tão incompetentes? Será que só aqui temos a desgraça da burrice e da corrupção, cujos corruptos e corruptores tudo corroem feito cupins republicanos?
A reposta tem sido buscada sem sucesso por inúmeros estudiosos das áreas das ciências econômicas e políticas. Os pensadores que leio são controversos em suas opiniões, não raro são antagônicos e têm opiniões de malfadado cunho ideológico que vão do extremo socialista ao liberal. Os diagnósticos e as soluções propostas para um mesmo problema são as mais diversas e frequentemente estapafúrdias. Há anos isso me intriga. Tem de haver uma raiz e origem causadora dos problemas que todos, de todas correntes ideológicas e de pensamento possam reconhecer.
Racionalizando, quando temos um problema ou crise nas nossas vidas ou em nossas empresas e desejamos sair deles, temos de ter instrumentos de controle que permitam identificar as reais causas desse problema. Sem esse primeiro passo, o diagnóstico será incorreto, o planejamento das ações incorreto, a solução não se dará adequadamente e os problemas se agravarão e se multiplicarão por seus efeitos colaterais gerando a balburdia em que vivemos.  Enfim, segue e aumenta o caos. Reincide-se nos mesmos erros e voltamos sempre ao mesmo ponto. Há um consenso nacional dizendo que o único caminho para se resolver isso é a educação, entendendo-se por isso multiplicar e melhorar as escolas. Discordo que seja o primeiro passo. Esse é o segundo passo a ser dado.
Qual seria então o primeiro passo que viria antes da educação? É atacar o caos gerado pelo aumento dessa população que ocorre em grau e velocidade maiores do que a capacidade do Estado de educar e se transformar em todas as demais áreas sociais e estruturais.
Tomados os 25 países com maior Índice de Desenvolvimento Humano – IDH e mais os Brics, só China e Índia tem IDH pior do que o do Brasil que é de sofrível 0,755. O que ambos têm em comum e que contribui para isso? Populações descomunais de mais de bilhão de pessoas e sua expansão historicamente acelerada nos séculos IXX e XX. Mas, a China tem melhorado acentuadamente. Por quê? Diminuiu o grau de crescimento populacional e passou a melhorar o IDH. Aumentou o bolo sem aumentar os comensais na mesma proporção. Se nos compararmos aos demais 20 países com melhor IDH que o Brasil, Austrália à frente com 0,978, seguida da Nova Zelândia, Noruega e os EUA, só este último tem população maior que a nossa. Em 1970 éramos 94 milhões no Brasil. Em 2012 somos 194 milhões. Nesses 42 anos nossa população dobrou crescendo 105%. Esse índice só é menor do que o da Índia que foi de 174%.  Essas comparações levam a uma conclusão óbvia: todos os países que mais se desenvolvem, o fazem com populações menores, ou, quando grandes, com uma menor expansão, congelamento ou até redução. É, para esses, mais fácil diagnosticarem as causas e solverem os problemas, planejando e implementando ações quantitativa e qualitativamente corretas e eficazes.
Quem doravante pretender governar o Brasil e melhorá-lo vencendo a copa de desenvolvimento, não pode, para a formulação do seu Plano de Governo, ouvir somente economistas, administradores, políticos e cartomantes. Que se convoquem os antropólogos e sociólogos. Sem um projeto antropológico que contemple congelamento ou menor crescimento populacional, não haverá no Brasil desenvolvimento justo, distributivo e sustentável possível.  Se não, continuarão a perenizar o pão e circo, via crescimento do PIB somente. O país poderá até enriquecer, mas, continuará empobrecendo a nossa nação.   


Rubens Hering - Economista