terça-feira, 27 de novembro de 2012

TERRA AOS ÍNDIOS


Sempre que se estabelece uma nova polêmica sobre Reservas Ambientais ou Indígenas ouço da parte de muitos a seguinte e emblemática frase: “é muita terra para pouco índio”.  Pois bem, pretendo aprofundar esse tema de forma não impregnada de ideologia ou interesse econômico. Esses dois fatores, quando presentes, distorcem fatos e mutilam verdades, induzindo a prevalência não só do falso e do tendencioso, mas, principalmente, do injusto e preconceituoso. O maior paradigma falso a ser quebrado na mente de muitos é o de que as Reservas Ambientais sejam exclusivamente para usufruto dos Índios. Não são. Somos todos por elas beneficiados com seus efeitos ecológicos. Quando nelas houver nativos, e só nesses casos, pode-se admitir que ali permaneçam os Índios. Seu tamanho é definido sob critérios ecológicos, geológicos, geográficos e políticos. São maiores ou menores independentemente de quantos índios haja sobre elas, ou mesmo se nenhum houver. Quando Cabral aqui aportou com suas caravelas em 1500, pela primeira vez pisaram este solo uns poucos brancos europeus portugueses, antecedendo a colonização que se seguiria décadas e séculos mais tarde. Não havia censo nem IBGE. Estudos antropológicos críveis permitem estimar que aqui habitavam, na mesma época, cerca de 5 milhões de Índios. Houvessem as naus portuguesas retornado à Lisboa e nunca mais voltado, após 512 anos seriam hoje muitos milhões de Índios no Brasil. Quantos em realidade são? Muito menos do que na época de Cabral, ou seja, segundo o Censo IBGE-2010 são apenas 896.917 pessoas. Não há como negar o massacre, seja o físico pelo genocídio ou o cultural pela injusta e devastadora “integração”. Deu-se isso ao longo dos séculos sob as mais diversas formas. Os europeus que aqui vieram sempre foram movidos pelo espírito da conquista, do enriquecimento e da exploração. Ou, teriam sido os portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses e outros aventureiros, todos eles colonizadores pacíficos e cordiais? Teriam compartilhado o conhecimento e difundido sua cultura entre os indígenas para torná-los iguais? Teriam promovido o “resgate” dos Índios pela via da escola ou pela catequese, pela fé e a prática cristã da caridade? Obviamente não. Muito pelo contrário. Os Índios foram sistematicamente escravizados para exploração da floresta, a prática da agricultura primitiva e a mineração braçal do ouro e prata. A conquista do território brasileiro se deu, pois, pela chibata, pela espada, pelo mosquete e o canhão, como o foi também em toda a América, do Alaska até a Patagônia. Os espanhóis, sob reinado da dinastia de Aragão e Castella e seus asseclas exploradores e genocidas como Hernán Cortéz e Francisco Pizzarro, foram particularmente eficientes nisso. Não bastava afugentar ou escravizar, era preciso extinguir, como de fato se extinguiu as civilizações dos impérios Maia, Inca, Asteca e tantas outras, transpassando pela bala e espada as mulheres, as crianças e os homens resistentes à escravidão e espoliação. Assim evidencia a história, que se frise, não foi escrita pelos Índios. Não foi muito diferente mais ao Norte, onde segundo o general Custer “o índio bom é índio morto”. Também não foi diferente por aqui com os Bandeirantes brasileiros.  Dessa forma deu-se a colonização e ocupação das terras no sentido do litoral ao interior. Resta hoje preservada apenas cerca de 5% da Mata Atlântica brasileira, o habitat original de muitas tribos já extintas ou em vias disso. A presença indígena remanescente nesse bioma é o horror que conhecemos bem, pois se dá sob nossos olhos, isto é, quando os queremos enxergar, nas esquinas da mendicância. Moralmente a terra não é de quem a “comprou”, sabe-se lá de quem e com que titulação ou esbulho cartorial. Nem mesmo de quem no passado mais remoto a recebeu de coroas européias ou mais recentemente de um Estado de governos sabidamente pródigos com poucos próximos dos seus governantes, em regra perdulários e corruptos. A terra é, antes de tudo, de quem nela nasceu e habitava primariamente sem titulação legal alguma, tendo sido dela escorraçado por “colonizadores”, que me lembro bem, na minha colônia, apelidavam os indígenas de bugres e não os distinguiam dos animais. Hitler, no século XX, não inventou o holocausto que impôs a morte e a expropriação de terras e posses contra nações e minorias que julgava inferiores. O regime nazista tão somente copiou os velhos conceitos de colonização dos antepassados europeus já praticados contra nativos da América, séculos antes. Obviamente, o nazismo aumentou a escala e a velocidade dos massacres com armas modernas do século XX. Aperfeiçoou os métodos medievais com campos de extermínio, gazes e fornalhas. De tudo isso há lições a tirar. A continuidade do holocausto aos nativos que restaram por aqui não é mais aceitável no século XXI. Não sei se com este escrito contribuo para a mudança da realidade dos Indígenas, nem mesmo dos Guarani-Kaiowás que se encontram novamente ameaçados. Mas, estou certo de mitigar o escamoteado preconceito que se revela na hipócrita idéia de que agora seriam poucos os Índios para o quinhão de terra que moralmente lhes devemos destinar.

Rubens Hering – economista e consultor filiado ao Partido Verde.