quinta-feira, 19 de maio de 2011

CÓDIGO FLORESTAL - INTERESSES ESTRANGEIROS OU ESTRANHOS?

As discussões e discórdias em torno da reforma do Código Florestal Brasileiro já transcendem ao debater e adentram ao combater. A coisa está levando os Deputados do xingamento a estarem próximos dos socos e tabefes. Ringues seriam mais apropriados do que o plenário legislativo para as próximas sessões desse embate.

Num lado desse ringue parlamentar está a enorme e milionária Bancada Ruralista, em defesa do agronegócio. Do outro lado fica a pequena Bancada Verde, junto com os demais idealistas do Desenvolvimento Sustentável, que lutam por uma natureza mais preservada. São plumagens de diversas cores, que vão do verde do PV, passando pelo vermelho PTista até o azul e amarelo Tucano. Na arquibancada fica a galera das ONGs e os ambientalistas de plantão. Já nos camarotes estão os lobistas que querem ver a ampliação das áreas plantáveis e a concessão da anistia aos desmatadores ilegais, que deixariam de responder por seu crime ambiental e de pagar as multas que devem.

A maior parte das autuações e prisões por crime ambiental ocorreu na gestão de Marina Silva, quando à frente do Ministério do Meio Ambiente. Uma lutadora incansável a quem tentam em vão nocautear e jogar na lona desse ringue infame. Ao soar o gongo para início da luta, o deputado comunista Aldo Rebelo produziu um relatório liberalizante e dúbio em suas várias versões, distribuídas de última hora pra confundir os contendores, na tentativa de se aprovar um texto de conveniência do grande capital em detrimento da ecologia. Assim, começou a estapafúrdia pancadaria verbal.

Vejo comunistas fazendo discurso de direita, traindo seus princípios e companheiros. Noto, ao mesmo tempo, ruralistas de direita acusando os ambientalistas e ONGs de defenderem interesses estrangeiros, porque estes teriam atrás de si o “agrobusiness” do imperialismo americano, o qual não quer a maior competitividade da agricultura brasileira.

Assisto a tudo isso estarrecido e sem entender. Os comunistas, como é o relator do projeto, agora arrotam Keynes e Adam Smith. Já os ruralistas de direita fazem o mais radical discurso vermelho dos Marxistas: “fora tio Sam e suas ONG´s”, “chega de intervenção estrangeira em nossa agricultura”, “Yankees go home”. Em suma, tudo no discurso reformista é falso. É o interesse setorial de poucos em detrimento do país, do planeta e da humanidade. O fato de americanos e europeus terem destruído antes suas florestas, não justifica cometermos o mesmo erro. Não se nivele a questão por tão baixo. Coloquemo-nos acima deles. Analisemos, assim, onde está o verdadeiro interesse estrangeiro, ou até mesmo estranho.

Quando o agricultor vai plantar, a primeira coisa que faz é optar pela semente. A soja brasileira, por exemplo, é mais de 80% transgênica. Portanto, é de semente patenteada por empresa estrangeira. A seguir passa-se para o herbicida, no caso, específico e exclusivo da mesma empresa que também detém o royalty sobre a produção, consumando um monopólio injusto e cruel. A próxima ação do agricultor é comprar os fertilizantes. Alguém consegue citar um grande produtor brasileiro de adubos? Desconheço algum. O terceiro passo do agricultor é comprar os inseticidas e demais defensivos ou agrotóxicos, em suma, venenos. Esse setor químico é dominado por uns poucos “players” internacionais, como as alemãs BASF, Bayer e Hoescht, as francesas Ródia e Dupont e as americanas Monsanto e Dow. A etapa seguinte é plantar e colher. Para tanto, o agricultor tem a seu dispor máquinas e equipamentos da New Holland, Massey Fergusson, Caterpillar, John Deer, Valmet, Estil, Husqvrna, etc. Alguma nacional? Nenhuma. Ato contínuo ao da colheita é o armazenamento sob lonas da japonesa Sansuy. Em seguida vem o transporte em caminhões da americana Ford, as alemãs Volkswagen e Mercedes, a italiana Fiat, as suecas Volvo e Scânia e, em breve, também os chineses virão se servir desse imbecil mercado rodoviário e sem ferrovias ou hidrovias bastantes. Nas custosas rodovias pedagiadas também já surgem concessionários estrangeiros.

No porto, absurdamente embarcamos commodities a granel e in natura para serem industrializadas e gerarem emprego e riqueza lá fora, quando não, alimentando os confinados porcos e vacas européias, japonesas e chinesas. O preço vil dessas commodities é ditado pelo cartel da Bolsa de Chicago. Esse mercado, dominam as gigantes multinacionais Cargill, Bunge, Monsanto, Brasway, Gessy Lever, Anderson Clayton, Nestlé, etc., as quais ditam o preço ao produtor brasileiro no campo. Fazem-no também até ao consumidor final mundo afora. Portanto, compram e vendem nas duas pontas se locupletando num mercado que é seu quintal.

Então, ao se contrapor ao lobby e aos interesses representados por esse modelo perverso e “estrangeirizado”, de um ruralismo que falsamente se diz nacionalista, os ambientalistas é que seriam contra os interesses brasileiros? O Greenpeace, a WWF e as ONGs similares brasileiras como a SOS Mata Atlântica e a SPVS, ao defenderem a preservação é que seriam os vilões entreguistas e estariam a serviço de tio Sam e de outras águias internacionais? Insinuar isso de ONGs sérias como essas é no mínimo uma infâmia.

Os agricultores estariam falidos por culpa do Código Florestal vigente? Claro que não. Ora, olhos e mentes devem ser abertos. Não vejo deputados da bancada ruralista combater os monopólios ou cartéis. Muito menos a enorme carga tributária. Tampouco questionam o crédito raro e caro. Também nada se faz contra um câmbio perverso e estúpido resultante do capital especulativo internacional, que para cá vem em busca do juro estratosférico da agiotagem bancária, achatando ainda mais o preço dos produtos agrícolas. O que dizer dos subsídios sufocantes e perversos da Europa e EUA aos seus agricultores. Sabe-se também do desperdício inaceitável, do campo ao porto, perdendo-se quase 30% do que se colhe. A infra-estrutura de transportes continua péssima e onerosa na maior parte do nosso país. Essa é a combinação diabólica de fatores que sufoca os agricultores. Vai do desgoverno à miopia do próprio setor. Não são nascentes, rios e as poucas árvores que restam em propriedades rurais as vilãs ou mazelas da agricultura.

O Código Florestal é usado como bode expiatório de males outros. Estamos diante de uma grande panacéia. É evidente que a dificuldade no campo tem outras origens. Não devem ser as áreas de Reservas Florestais, de Proteção Ambiental das nascentes ou os cursos de águas, condenados a pagarem o pato via uma crescente depredação embutida na pretensa reforma, a qual prejudicará a sociedade atual e as futuras gerações.

Por isso tudo defendo que no Código Florestal vigente não deveria ser mudada uma única vírgula. Viva Chico Mendes! Viva a Irmã Dorothy, dentre tantos outros heróis anônimos! A eles minha homenagem. São símbolos da luta por uma causa justa, cujo sangue derramado, não pode ter sido em vão...

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